quinta-feira, 29 de abril de 2010

Desafio Literário - Abril: Confesso que vivi - Pablo Neruda


Tema: Escritor latino-americano
Mês: Abril
Livro: Confesso que Vivi - Memórias (Confieso que he vivido)
Autor: Pablo Neruda
Editora: Martins Fontes
Número de páginas: 362

Sinopse: Célebre autobiografia de Neruda, a única obra em prosa do poeta chileno que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1971 (o terceiro latino-americano e o sexto escritor de língua espanhola a receber a honraria). Militante comunista e ícone da esquerda latino-americana, Neruda narra, num estilo impregnado de poesia, sua vida desde a infância até os últimos dias, quando mesmo impossibilitado pela doença insiste em escrever - seus poemas à Matilde, o último amor, durante a convalescência, são considerados clássicos da língua espanhola. Diplomata ainda jovem, Neruda revela nesta obra que iniciou suas atividades políticas na Espanha, na década de 30, durante a guerra civil, quando representava o Chile na embaixada em Madri. As impressões do poeta sobre a China e a União Soviética, países que visitou mais por simpatia que por exigências diplomáticas, assim como suas relações com escritores como García Lorca e Miguel Hernández, são memoráveis. O poeta chegou a ser indicado à Presidência da República de seu país, honra que cedeu ao grande amigo Salvador Allende. "Confesso que vivi" termina com Neruda lamentando a morte de Allende, assassinado em 11 de setembro pelas tropas de Pinochet. O poeta morre pouco depois, em 23 de setembro.

O livro é sobre: as memórias do poeta chileno.

“Talvez não tenha vivido em mim mesmo, talvez tenha vivido a vida dos outros.
Do que deixei escrito nestas páginas se desprenderão sempre – como nos arvoredos de outono e como no tempo das vinhas – as folhas amarelas que vão morrer e as uvas que reviverão no vinho sagrado.
Minha vida é uma vida feita de todas as vidas: as vidas do poeta.”

Eu escolhi este livro porque: Sempre gostei muito da poesia de Neruda; fiquei interessada para conhecer mais sobre sua vida.

A leitura foi: um pouco difícil no começo, mas logo se tornou mais fácil. Não é um livro para ser lido de uma vez e sim, aos poucos, para absorver mais a história.

Achei muito emocionante como ele descreve o que sentiu quando publicou o primeiro livro:

"Meu primeiro livro! Sempre sustentei que a tarefa do escritor não é misteriosa nem mágica, mas que, pelo menos a do poeta é uma tarefa pessoal, de benefício público. O que mais se parece com a poesia é um pão ou um prato de cerâmica ou uma madeira delicadamente lavrada, ainda que por mãos rudes. No entanto creio que nenhum artesão pode ter, como o poeta tem, por uma única vez durante a vida, esta sensação embriagadora do primeiro objeto criado por suas mãos, com a desorientação ainda palpitante de seus sonhos. È um momento que não voltará nunca mais. Virão muitas edições mais cuidadas e belas. Chegaram suas palavras vertidas na taça de outros idiomas como um vinho que cante e perfume em outros lugares da terra. Mas esse minuto de arrebatamento e embriaguez, com som de asas que revoluteiam e de primeira flor que se abre na altura conquistada, esse minuto é único na vida do poeta. "(Confesso que vivi, p. 53).

Neruda escreve prosa como se estivesse escrevendo poesia:
"Vocábulos amados... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho...São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas... E então as revolvo, agito-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as... Deixo-as como estalactites em meu poema como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda... Tudo está na palavra... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que lhe obedeceu... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregado de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada... " (Confesso que vivi, p.57-8)

"Minha poesia e minha vida têm transcorrido como um rio americano, como uma torrente de águas do Chile, nascidas na profundidade secreta das montanhas austrais, dirigindo sem cessar até uma saída marinha o movimento de suas correntes. Minha poesia não rejeitou nada do que pôde trazer em seu caudal; aceitou a paixão, desenvolveu o mistério e abriu caminho entre os corações do povo. Coube a mim sofrer e lutar, amar e cantar; couberam-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? E todas as alternativas, desde o pranto até os beijos, desde a solidão até o povo, perduram em minha poesia, atuam nela porque vivi para minha poesia e minha poesia sustentou minhas lutas." (Confesso que vivi, p. 178).

Gostei muito do livro; o título está correto: Neruda viveu mesmo! Só fiquei um tanto quanto decepcionada em relação às suas posições políticas. Não vou discutir política aqui, mas defender com tanta ênfase Mao Tsé, Stalin (tem até um poema - Ode à Stalin), Che Guevara, Fidel Castro...é certo que eram outros tempos, outra visão...mas pesquisando descobri que mesmo depois que os crimes de Stalin foram revelados (mais de 20 milhões de mortes), ele ainda continuou defendendo-o. Muito estranho para alguém que morou em um país com uma terrível ditadura e também sofreu perseguição...sei lá, é apenas minha opinião.

Achei no You Tube um vídeo com imagens de Neruda e com sua voz, declamando a poesia "Posso escrever os versos mais tristes esta noite."




Posso escrever os versos mais tristes esta noite.


Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,

e tiritam, azuis, os astros, ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu a quis, e às vezes ela também me quis...

Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.

A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.

Ela me quis, às vezes eu também a queria.

Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Que importa que o meu amor não pudesse guardá-la.

A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.

Minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Como para aproximá-la meu olhar a procura.

Meu coração a procura, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.

Nós, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.

Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.

É tão curto o amor, e é tão longe o esquecimento.

Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,

minha alma não se contenta com tê-la perdido.


Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,

e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo

11 comentários:

  1. Ei Lia,

    Eu não sou muito de biografias mas eu amoooo as poesias do autor.

    Adorei saber mais sobre ele pelo post :)

    bjoo

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  2. Escolha bem interessante para esse mes, pelo que li concordo com vc que relmente nao se deve ser lido as pressas, mas com calma.
    Otima resenha!!

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  3. Oi, Nanda
    Eu já adoro biografias..adoro saber sobre a vida dos outros..rs..bjs

    Oi, Kézia
    Obrigada pelos elogios..bjs

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  4. Olá Lia,

    Que biografia interessante! Gostei muito dos trechinhos que você copiou de amostra, realmente Neruda escrevia prosa como se fosse poesia, que lindo!

    Estou adorando as resenhas deste mês no Desafio, uma melhor que a outra.

    Grande beijo!

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  5. Li há pouco 'O Carteiro e o Poeta', e apesar de não ter gostado muito da leitura, teve seu lado interessante, o de conhecer alguns fatos da vida de Neruda, inclusive esse episódio que vc citou onde ele foi indicado à presidência..

    Confesso que não sei se este é um livro que me animaria a ler, mas ficou muito boa sua resenha! :)

    Bjs

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  6. O mesmo livro que escolhi para o desafio desse mês.

    Gostei muito da sua resenha e achei interessante ter pelo menos levantado a questão política que é parte fundamental da vida e da obra de Neruda.

    Beijos.

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  7. Taí um livro que eu queria ler e depois dessa resenha, vou ver se pego para ler. Também sou fã de Neruda. Você assistiu ao O Carteiro e o Poeta? É lindo. Beijos.

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  8. Oi, Cristine
    Ele escreve muito bonito mesmo, dá até gosto de ler...

    Oi, Fernanda
    Obrigada pelos elogios; tb li "O Carteiro e o Poeta" e gostei muito.

    Oi, Daniela
    Tb escolheu esse? E está gostando?

    Oi, Cecilia
    Assisti faz muito tempo; é lindo mesmo, gostaria de revê-lo..bjs

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  9. Que luxo!!!! Que ótima escolha! Adoro Neruda e tudo relacionado ao Chile!

    Vou assistir ao vídeo.

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  10. Deve ser uma leitura inspiradora, Lia! Acredito que foi uma escolha acertada.

    Beijos

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  11. Eu adoro o filme "O carteiro e o poeta" (não li o livro) e fiquei com uma imagem muito bonita do Neruda em função do livro. Comprei esse livro biográfico dele mas não li. Comecei mas não engrenei. Quem sabe agora? Você me instigou!

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