segunda-feira, 13 de maio de 2013

Bill Watterson e a oitava maravilha do mundo


Depois da Patricia falar sobre a fofa Mafalda e seu criador, Quino, hoje é a minha vez de dedicar meu amor imenso pelo terrível Calvin e o fofo Haroldo, criações do talentoso Bill Watterson. Conheci Calvin & Haroldo (Calvin & Hobbes no original) através do meu marido, quando ainda era  namorado. Quando minha filha era pequena, meu marido costumava ler as tirinhas para ela e era uma delícia ver o quanto ambos se divertiam. Ela gosta de lê-las até hoje. E nós também. No nosso primeiro Natal aqui nos Estados Unidos, comprei a caixa com a obra completa de presente para eles:

Todas as 3.160 tirinhas

Bill Watterson é um cartunista norte-americano, nascido em 1958. As tirinhas com os personagens Calvin & Haroldo começaram a ser publicadas em jornais em novembro de 1985 e foram produzidas até dezembro de 1995. Em 1986, Watterson se tornou a pessoa mais jovem a ganhar o prestigioso prêmio Reuben Award, como cartunista do ano, concedido pela National Cartoonists Society. Ganhou novamente em 1988 e foi nomeado em 1992. Declara ter sido influenciado pelos cartunistas Charles Schulz (Peanuts), Walt Kelly (Pogo) e George Herriman (Krazy Kat).




No período em que eram escritas, as tirinhas chegaram a ser publicadas em mais de 2.400 jornais e seus livros e coletâneas já venderam mais de 30 milhões de exemplares.

Primeira tirinha publicada

A última tirinha foi publicada em 31 de dezembro de 1995. Depois disso, Watterson se dedicou a pintura e nunca deu indícios de que algum dia iria dar continuidade a Calvin & Haroldo,  criar novos personagens ou dar início a novos projetos. Em uma entrevista ao jornal Cleveland Plain Dealer, da cidade em que mora atualmente, ele fala sobre os motivos de ter parado: 

"Eu fui sincero ao escrever, e tentei deixar este mundinho divertido, para que as pessoas se dessem ao trabalho de ler. Minha preocupação acabava aí. Você mistura um monte de ingredientes e, vez por outra, a reação funciona. Não sei explicar por que a tira deu tão certo, e não sei se conseguiria fazer de novo. Tem muita coisa que tem que se encaixar ao mesmo tempo.
Sempre é melhor sair antes da festa. Se eu tivesse aproveitado a popularidade da tira e me repetido por cinco, 10 ou 20 anos, as pessoas que agora ‘lamentam’ a falta de Calvin & Haroldo estariam me querendo morto e amaldiçoando os jornais por publicarem tiras tediosas e antigas como a minha ao invés de conseguir novos talentos com mais frescor. E eu concordaria com eles.
Acho que uma das razões pelas quais Calvin & Haroldo ainda tem público é porque decidi não continuar correndo até gastar os pneus. Nunca me arrependi de ter parado quando parei."

última tirinha

Watterson nunca permitiu o licenciamento dos seus personagens, diz que isso iria desvalorizá-los, assim como suas personalidades. Também recusou que fizessem uma versão animada de sua tirinha. Declarou: I wanted to draw cartoons, not run a empire (Queria desenhar cartoons, não dirigir um império).

Agora, vamos aos personagens...Calvin é um menino de 6 anos que, de acordo com a definição de um jornalista, um dia soa como um psicótico viciado em Ritalina e no outro, como um estudante de Yale.  O tigre Haroldo é seu bichinho de pelúcia e amigo imaginário, ganha vida somente quando estão sozinhos. O gato de Watterson, Sprite, inspirou a personalidade e atributos físicos do tigre. Calvin luta contra monstros de aveia no café da manhã e monstros feitos de bolhas de sabão na hora do banho. Se transforma em um Tiranossauro rex, inseto humano, capitão Nalpam e astronauta Spiff. Seus únicos medos: da babá Rosalyn e do escuro. 

A origem dos nomes dos personagens demonstra a vocação filósofica e debatedora das tiras de Watterson: Calvin - John Calvin (João Calvino) - teólogo responsável pelas reformas na Igreja Católica; Hobbes/Haroldo - Thomas Hobbes - cientista político e filósofo, autor do livro Leviatã. De uma maneira brilhante, Watterson trata de questões existenciais (Deus, homem, autoridade, ética) usando o cotidiano de um garoto de 6 anos.

Outros personagens dos livros: os pais de Calvin, sempre ocupados; Susie, a amiga-namorada-inimiga; Moe, o valentão da escola; Sra. Wormwood, a professora que vive tentando controlar o Calvin, nunca conseguindo; Rosalyn, a babá adolescente. 

Calvin é maravilhoso...é claro que eu não iria querer nunca um filho como ele, mas é divertidíssimo!! Adoro os títulos dos livros: Tem alguma coisa babando embaixo da camaOs dias estão simplesmente lotados (meu favorito), Felino selvagem psicopata assassino (o favorito da minha filha), O mundo é mágico...







Ano retrasado, os irmãos Tom e Dan Heyerman imaginaram como seria o Calvin 26 anos depois de sua criação; estaria casado com Susie e teria uma filha chamada Bacon (inspiração: Francis Bacon - filósofo) que herdaria o tigre Haroldo. Achei muito fofo!






Quanto ao título do post...é uma resposta dada ao jornal Cleveland Plain Dealer:

"Como você quer que as pessoas lembrem do menino de 6 anos e seu tigre?
Bill Watterson: Voto em Calvin e Haroldo, a Oitava Maravilha do Mundo."

domingo, 12 de maio de 2013

Jonathan Safran Foer - O escritor que virou substantivo





Meu primeiro contato com o escritor Jonathan Safran Foer foi indireto, através do filme "Uma Vida Iluminada". Na época que assisti, ainda não sabia que era uma adaptação do seu primeiro romance "Everything is Illuminated" (que no Brasil saiu com o título de "Tudo se Ilumina") escrito em 2002. Foer é um escritor americano, nascido em Washington em 1977. Formou-se em Filosofia na Universidade de Princeton. O livro "Tudo se Ilumina" foi sua tese de graduação em Princeton e possui traços autobiográficos, se inspirando na vida de seu avô materno, Louis Safran, um sobrevivente do Holocausto. No livro, Jonathan, um jovem judeu americano, viaja até a Ucrânia para tentar encontrar uma mulher que supostamente salvou a vida de seu avô na Segunda Guerra Mundial. Gostei demais do filme, tendo assistido inúmeras vezes. A história é ao mesmo tempo emocionante, engraçada e trágica. Tentei ler o livro em inglês, mas não consegui. Não sei se era porque meu inglês não era muito bom ainda, ou se ele é um pouco difícil de ler mesmo...

Poster do filme Everything is Illuminated




Com "Everything is Illuminated" Foer recebeu  premios como o National Jewish Book Award e o Guardian First Book Award.

Um tempo depois, descobri o livro "Extremamente Alto & Incrivelmente Perto" (Extremely Loud & Incredibly Close) que se tornou um dos meus livros favoritos.

Edição em Inglês

Edição Brasileira

Este foi o segundo romance escrito por Foer, que usa como pano de fundo os atentados de 11 de setembro de 2001 para contar a história de Oskar Schell, um menino muito peculiar e inteligente que perdeu o pai no atentado e tem que aprender a lidar com essa perda. Este livro foi muito criticado por ter tratado muito cedo, e com algum humor, dos atentados que os americanos ainda estavam sofrendo por digerir. O escritor se defendeu dizendo que se os jornalistas escreveram sobre o assunto, os artistas também deveriam poder escrever. 

Além da história de Oskar, há outra história sendo narrada no livro, que é a da vida de seus avós. O livro é bem diferente visualmente, possui várias fotos e imagens, assim como páginas em branco. Tudo se encaixa perfeitamente no decorrer da narração.








Ano passado, o livro foi adaptado para o cinema e ganhou o infeliz título de "Tão Forte e Tão Perto" em português. Foi alvo de muitas críticas, por ser extremamente sentimental. Eu concordo, pois dei o maior vexame no cinema de tanto chorar...se você leu o livro e gostou muito,  veja o filme mas se esqueça do livro, trate como duas obras diferentes. Para variar, o livro é muito, muito melhor! 

Poster do filme

Outros livros escritos por Foer:

Eating Animals (Comer Animais - 2009) -  primeiro livro de não ficção escrito quando sua mulher ficou grávida e ele decidiu parar de comer carne. Este livro é sobre a indústria do consumo de proteína animal nos EUA e foi tratado pela crítica como uma tentativa de promover uma conversão coletiva ao vegetarianismo.


Tree of Codes (2010) - o escritor usou sua história favorita do autor  Bruno Schulz (A Rua dos Crocodilos) para criar uma infinidade de novas possibilidades para ela, recortando palavras e trechos de cada página, de forma que, quando sobrepostas, formem novas leituras.

sábado, 11 de maio de 2013

O multifacetado José Luis Peixoto


Foto Helena Canhoto 

Não  me lembro da primeira vez que ouvi algo sobre  o escritor português José Luis Peixoto; creio que foi na época do lançamento do seu livro “Livro”. Fiquei interessada quando li a sinopse e coloquei o livro na minha lista de desejos, para comprar quando fosse para o Brasil. Em julho, quando finalmente viajei, passei uns dias em Palmas, no Tocantins, onde mora a família do meu marido. Nesses dias, estava acontecendo  na cidade a  FLIT – Feira Literária Internacional do Tocantins e José Luis Peixoto seria um palestrante, juntamente com José Eduardo Agualusa. Foi muito bom conhecer ambos, são muito simpáticos. Lá pude comprar o meu exemplar do “Livro”, que foi devidamente autografado.


 Meu primeiro livro autografado por um escritor

Aconteceu um fato engraçado neste dia; eu cheguei atrasada, pois estava em uma chácara na beira do lago, meio distante da cidade. A palestra com o Agualusa já havia começado e algum tempo tempo depois, sentou-se um moço na minha frente, todo tatuado e cheio de piercings. Quando vi os livros que ele segurava, descobri que ele era o José Luis Peixoto… não o conhecia nem mesmo por fotos, por isso o estranhamento. Quanto as tatuagens...ele possui uma no antebraço no formato de uma moldura e pede para as pessoas desenharem dentro, postando as fotos no Instagram...diferente, né?


Foto retirada do Instagram 




José Luis Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. É licenciado em Línguas e Literaturas Modernas (Ingles e Alemão) pela Universidade Nova de Lisboa. Foi professor do ensino secundário antes de dedicar-se profissionalmente à escrita em 2000. Recebeu o Prêmio Jovens Criadores do Instituto Português da Juventude nos anos de 1998  e 2000.



Em outubro de 2000 publicou seu primeiro romance, Nenhum Olhar, que foi muito bem recebido. No ano seguinte, venceu o Prêmio Literário José Saramago.

Em 2003, participou de uma rara experiência literária/musical; junto com a banda de heavy metal Moonspell,  lançou o livro “Antídoto” e o CD do mesmo nome.


Em 2008, Nenhum Olhar  (The Implacable Order of Things) entrou para seleção semestral "Discover Great New Writers" das livrarias Barnes & Noble, sendo o único romance em língua estrangeira a fazer parte dessa lista.

(Achei na biblioteca daqui)

Os seus romances foram  publicados em muitos países, como França, Itália, Bulgária, Turquia, Finlândia, Holanda, Espanha, República Checa, Roménia, Croácia, Bielorrússia, Polónia, Brasil, Grécia, Reino Unido, Estados Unidos, Hungria, Israel, etc.

Peixoto combina referências de sua região natal, o Alentejo (que encarna um Portugal arcaico, parado no tempo) com uma prosa moderna, que fala de eventos contemporâneos e dialoga com a linguagem do rock.

Obras Publicadas:
Ficção
 2000 - Morreste-me
 2000 - Nenhum Olhar

 2002 - Uma Casa na Escuridão

 2003 - Antídoto

 2006 - Minto Até ao Dizer que Minto (distribuído apenas com a revista Visão)

 2006 - Cemitério de Pianos
 2007 - Hoje Não (distribuído apenas com a revista Sábado)

2007 - Cal

2010 - Livro
2011 - Abraço
Poesia
2001 - A Criança em Ruínas

2002 - A Casa, a Escuridão. 
2008 - Gaveta de papéis


Literatura de Viagem

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Louisa May Alcott: A mulher por trás de Little Women



Quem foi Louisa May Alcott? Se a única coisa que você sabe foi que ela escreveu aquele livro infantil que virou filme com a Winona Ryder, Susan Sarandon, Kirsten Dunst e um Christian Bale novinho, você precisa ler este post.


Sim, ela escreveu Little Women (Mulherzinhas) que a tornou rica e famosa, mas sua vida não foi nada fácil antes (e depois também) do sucesso. O quanto rica ela ficou? Bem, Little Women vendeu 1,8 milhões de livros na época do lançamento...em 20 anos, ela fez três vezes mais dinheiro do que Henry James e Herman Melville fizeram a vida toda, juntos.




Louisa May Alcott nasceu em 29 de novembro de 1832 nos arredores de Filadélfia, mas a família mudou-se a seguir para Boston. Depois para Concord, seguido de Fruitlands, depois para Concord novamente e em 1849 estavam em Boston outra vez...O pai era um filósofo transcendentalista que defendia métodos modernos de educação, acreditando no prazer e no envolvimento das crianças no ensino. Mas seus projetos idealistas mantiveram-nos próximo da pobreza e foi a carreira de Louisa que finalmente trouxe segurança econômica à família.


Orchard House em Concord, Massachusetts

Mas vamos a outros fatos que podem não ser tão conhecidos para a maioria das pessoas:

1) Antes de escrever Little Women, Alcott escreveu secretamente pulp fiction (histórias de qualidade menor, publicadas em formato de revista) sob o pseudônimo de A. M. Barnard, com temas como sexo, crime e drogas. Essas histórias ficaram muito tempo perdidas e acredita-se que ainda há muitas a serem descobertas;

2) Foi criada como vegetariana e viveu em uma comunidade chamada Utopian Fruitlands;

3) Devido a pobreza, teve que trabalhar muito cedo e exerceu profissões como costureira, dama de companhia, professora, lavadeira e governanta;

4) Foi enfermeira durante a Guerra Civil Americana no Union Hospital em Georgetown D.C., mesmo sem nunca ter realizado treinamento médico. Nesta época, contraiu pneumonia, foi tratada com um remédio a base de mercúrio, que afetou  sua saúde. As cartas enviadas para sua família neste período resultaram no livro Hospital Scketches (1863);

5) Usou drogas como ópio, haxixe e morfina, para tentar controlar as dores que sofria. Hoje acredita-se que a escritora sofria de Lupus;

6) Uma fofoca: diz-se que ela preferia homens mais jovens; foi apaixonada por um homem, dez anos mais novo do que ela quando passou um tempo em Paris. Ladislas "Laddie" Wieniewki serviu como modelo para Laurie em Little Women. Há rumores de que também teve paixonites pelos escritores Henry David Thoreau e Ralph Waldo Emerson. Apesar das paixões, nunca se casou: Liberdade é um marido melhor do que amor - ela declarou;

7) Foi feminista e abolicionista. Abrigou em sua casa um escravo fugitivo e foi a primeira mulher a se registrar em Concord quando o voto feminino foi aprovado em Massachusetts em 1879;

8) Fez parte do grupo conhecido como American Bloomsbury do qual faziam parte Ralph Waldo Emerson, Margaret Fuller, Nathaniel Hawthorne e Henry David Thoreau;

9) Escreveu Little Women a pedido de seu editor Thomas Niles, que queria que ela escrevesse um livro para garotas. Aceitou apenas por precisar muito de dinheiro;

10) Inspirou mulheres tão distintas como Gertrude Stein, Simone de Beauvoir, Ursula Le Guin, Hillary Clinton e J. K. Rowling.


Leia Little Women. Muitos acham o livro muito moralista conservador e moralista, mas na época não era tanto assim.. é o retrato do dia-a-dia de quatro irmãs. A obra organiza-se por capítulos, quase sempre a volta de um episódio passado no microcosmo familiar da casa. Cada episódio produz um comentário moral. Os críticos dizem que a sucessão dos capítulos consegue compor um estudo da psicologia adolescente e que o talento de Alcott está exatamente na capacidade de fazer esse retrato completo. O escritor Henry James chamou Alcott de romancista das crianças. Ela escreveu mais três livros da série Little Women e muitos outros livros infantis.

Obras:
  • The Inheritance (1849, não publicado até 1997)
  • Flower Fables (1849)
  • Hospital Sketches (1863)
  • The Rose Family: A Fairy Tale (1864)
  • Moods (1865, revised 1882)
  • Morning-Glories and Other Stories (1867)
  • The Mysterious Key and What It Opened (1867)
  •  Little Women or Meg, Jo, Beth and Amy (1868)
  • Three Proverb Stories (inclui "Kitty's Class Day", "Aunt Kipp" e "Psyche's Art") (1868)
  •  A Strange Island (1868)
  • Part Second of Little Women, também conhecido como Good Wives  (1869)
  • Perilous Play (1869)
  • An Old Fashioned Girl (1870)
  • Will's Wonder Book (1870)
  • Little Men: Life at Plumfield with Jo's Boys (1871)
  • Aunt Jo's Scrap-Bag (1872–1882)
  • Transcendental Wild Oats(1873)
  • Work: A Story of Experience (1873)
  • Eight Cousins or The Aunt-Hill (1875)
  • Beginning Again, Being a Continuation of Work (1875)
  • Silver Pitchers, and Independence: A Centennial Love Story" (1876)
  • Rose in Bloom: A Sequel to Eight Cousins (1876)
  • Under the Lilacs (1878)
  • Jack and Jill: A Village Story (1880)
  • The Candy Country (1885)
  • Jo Boys and How They Turned Out: A Sequel to "Little Men" (1886)
  • Lulu's Library (1886–1889)
  • A Garland for Girls (1888)
  • Comic Tragedies (1893 [postumo])
Como A. M. Barnard
  •  Behind a Mask,or a Woman's Power (1866)
  • The Abbot's Ghost, or Maurice Treherne's Temptation (1867)
  • A Long Fatal Love Chase (1866 – publicado em 1995)
Publicado anonimamente
  • A Modern Mephistopheles (1877)

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Charlotte Brontë e sua forte heroína, Jane Eyre


Ontem o post foi sobre Jane Austen, minha escritora favorita, que recebeu elogios de muitos escritores mas não foi muito elogiada pela escritora inglesa Charlotte Brontë. No final do post direi qual foi a opinião de Charlotte a respeito de Jane Austen.


Charlotte Brontë - 1854 (Wikipedia)

Charlotte não viveu na mesma época de Jane; nasceu em 1816, um ano antes da morte de Austen. A Inglaterra já não era a mesma, estava mais industrializada e as mulheres trabalhavam mais fora. Mesmo vivendo em épocas bem diferentes, possuíam muitas coisas em comum. Ambas nasceram em um tempo em que as mulheres tinham poucos direitos. Se não eram casadas, dependiam de seus pais ou irmãos financeiramente. Viveram em um tempo em que mulheres da classe média só podiam trabalhar como governantas ou damas de companhia. Elas desafiaram seu tempo, escreveram, foram publicadas e reconhecidas por seu grande talento. Também foram enviadas para estudar longe de casa (o internato onde Charlotte estudou inspirou o colégio Lowood do livro Jane Eyre)  e, devido a pobreza, tiveram que finalizar sua educação em casa. Entretanto, tiveram  a sorte de nascer em famílias que amavam livros e ambas tiveram a chance de serem educadas por seus pais.

A paixão pela escrita iniciou cedo para as duas. Como jovens escritoras, entreteram suas famílias com peças e histórias escritas por elas mesmas. Charlotte não era a única escritora na família - seu irmão, irmãs e pai também escreviam. Jane Austen e Charlotte Brontë escreveram sobre mulheres fortes e inteligentes, mesmo com as restrições dos períodos Georgiano e Vitoriano, onde o papel reservado para mulher era o doméstico. Morreram jovens, Jane com 41 anos e Charlotte com 38, grávida e apenas 1 ano após ter se casado.


Charlotte Brontë - Vida e obra


Nasceu em Thorton, Yorkshire, Inglaterra em 1816, terceira filha de Patrick Brontë, um clérigo descendente de irlandeses e de Maria Branwell. Em 1820, a família se mudou para Haworth, onde o reverendo Bronte foi curador da igreja local. Quando a Sra. Brontë morreu, devido a um câncer, sua irmã Elizabeth Branwell ajudou a criar as crianças. Em 1824, as quatro meninas mais velhas foram enviadas pelo pai para Cowan Bridge School, um tipo de internato para filhas de clérigos. Nesta escola, que possuía uma disciplina muito rígida, as crianças eram mal alimentadas  e muitas ficavam doentes.

As duas crianças mais velhas acabaram morrendo devido à tuberculose, o que resultou na volta para casa de Charlotte e Emily, salvando suas vidas. Voltando para casa, começaram a escrever histórias juntamente com os irmãos Branwell e Anne. Após terminar sua educação em Roe Head, trabalhou como professora e governanta. Em 1842, viajou com a irmã  Emily para Bruxelas para trabalhar em um internato dirigido por Constantin Héger e sua esposa. Acabou se apaixonando por Héger, mas não foi correspondida.

Em 1846, Charlotte, Emily e Anne publicaram uma coleção de poemas em conjunto utilizando os pseudônimos, Currer, Ellis e Acton Bell. Sobre o motivo de não utilizarem seus próprios nomes, Charlotte disse o seguinte:

"Não gostávamos da ideia de chamar a atenção, por isso escondemos os nossos nomes por detrás dos de Currer, Ellis e Acton Bell. A escolha ambígua foi ditada por uma espécie de escrúpulo criterioso segundo o qual assumimos nomes cristãos, claramente masculinos, já que não gostamos de nos declarar mulheres, uma vez que, naquela altura, suspeitávamos que a nossa maneira de escrever e o nosso pensamento não eram aqueles que se podem considerar 'femininos'. Tínhamos a vaga impressão de que as escritoras são por vezes olhadas com preconceito e tínhamos reparado como os críticos por vezes as castigam com a arma da personalidade e as recompensam com lisonjas que, na verdade, não são elogios."

O livro Poems by Currer, Ellis and Acton Bell não foi bem recebido e vendeu apenas duas cópias no ano em que foi publicado. O fracasso não as intimidou e começaram a escrever ficção.





As irmãs Brontë

No período de dois anos, Charlotte perdeu seu irmão e suas duas irmãs. Em 1854, se casou com Arthur Bell Nicholls. Engravidou logo após o casamento e sua saúde, que sempre foi ruim, piorou muito. Morreu em março de 1855, juntamente com o filho que esperava.

Obras:

Juvenilia:

  • The Young Men's Magazine, Number 1 - 3 
  • The Spell
  • The Secret
  • Lily Hart
  • The Foundling
  • The Green Dwarf
  • My Angria and the Angrians
  • Albion and Marina
  • Tales of the Islanders
  • Tales of Angria: 
    • Mina Laury
    • Stancliffe's Hotel
    • The Duke of Zamorna
    • Henry Hastings
    • Caroline Vernon
    • The Roe Head Journal Fragments

Romances:
  • Jane Eyre, publicado em 1847
  • Shirley, publicado em 1849
  • Villette, publicado em 1853
  • The Professor, publicado postumamente em 1857.


Suas obras estão repletas de elementos góticos e românticos: sonhos, visões e encontros dramáticos, e possuem fortes traços autobiográficos. Jane Eyre é a obra onde os elementos de sua vida foram melhor transmutados em um poderoso trabalho de ficção. Sua experiência traumática em Cowell Bridge, seu trabalho como governanta, seu amor por Héger - todas essas experiências ajudaram a dar forma à heroína Jane Eyre.

Capa da primeira edição de Jane Eyre

Jane Eyre conta a história de uma simples governanta que sofre muitas dificuldades na vida e acaba se apaixonando por seu patrão, o Sr. Rochester. O livro recebeu ótimas críticas, pois possuía estilo, conteúdo e uma mensagem de esperança de um futuro melhor. Poucas pessoas acreditavam que havia sido escrito por uma mulher. É um romance feminista por excelência; Jane é uma personagem rebelde em um mundo de mulheres obedientes. É jovem, corajosa e inquieta e reage fortemente quando desacreditada devido à classe social e sexo. 

Eu li Jane Eyre ano passado e gostei muito; recomendo fortemente a leitura. Por outro lado, concordo com o crítico literário G. H. Lewers que, depois da publicação do livro, aconselhou Charlotte Brontë a ser menos melodramática em sua escrita, citando Jane Austen como exemplo e inspiração. A resposta de Charlotte não foi muito educada...ela diz o seguinte sobre "Orgulho e Preconceito":

"Eu não tinha visto Orgulho e Preconceito até eu ter lido sua frase então eu apanhei o livro. E o que eu achei? Um apurado daguerreótipo (fotografia). Um retrato de tipos bem comuns; um jardim muito bem cultivado, cuidadosamente cercado com canteiros de bordas bem delineadas e delicadas flores; mas nenhum vislumbre de uma fisionomia brilhante e vívida, nem um lugar aberto, nenhum ar fresco, nenhum monte azulado, nenhum riacho. Eu dificilmente gostaria de conviver com suas (de Jane) senhoras e cavalheiros, em suas confinadas residências. (...) Você diz que devo familiarizar minha mente com o fato de que "Miss Austen nãé uma poetisa, não tem 'sentimentos'" (você desdenhosamente colocou a palavra entre aspas), "não tem eloquência, nada do entusiasmo arrebatador (próprio) da poesia"; e então você acrescenta, "eu devo apreender a reconhecê-la como uma das maiores artistas, dos grandes pintores da natureza humana e um dos escritores com o mais agradável senso de meios para um fim que se conhece. O último ponto, somente, eu reconhecerei... Miss Austen sendo, como você diz, sem "sentimentos", sem poesia, talvez seja sensata (mais real do que verdadeira), mas ela não pode ser grande." (Retirado do site Jane Austen em Português)


I'm so sorry, Sra. Brontë...mas isso me soa como  uma baita dor de cotovelo...rs



quarta-feira, 8 de maio de 2013

Por que ler Jane Austen



"É uma verdade universalmente conhecida que um homem ou uma mulher, possuidor(a) de um amor imenso pela leitura, deve um dia ler Jane Austen."

Esta foi apenas uma brincadeira com um dos mais famosos parágrafos iniciais da Literatura Inglesa, o início do livro "Orgulho e Preconceito" de Jane Austen. ("É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de uma esposa" - tradução de Lucio Cardoso - Clássicos da Editora Abril). 

Mas por que ler Jane Austen?

Antes de responder a essa pergunta, gostaria de me apresentar. Não possuo vlog, como a maioria das garotas super poderosas com quem divido esse blog, por isso, muitos ainda não me conhecem. Meu nome é Lia moro há dois anos nos Estados Unidos, sou bióloga por profissão e atualmente mãe em período integral. Não sou professora como as meninas, mas cursei Letras por um ano e meio antes de me mudar. Tenho um blog - Quero morar em uma livraria - que está um tanto quanto abandonado; pretendo reativá-lo em breve. Tenho em comum com as meninas o imenso amor por livros e pela leitura e, graças a elas, pude sair da minha zona de conforto literário e conhecer escritores(as) maravilhosos(as) como Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Rosa Montero, Neil Gaiman, Charles Dickens e muito mais...

Mudando de assunto… quem foi Jane Austen?

Retrato a óleo de Jane Austen feito em 1875, de autor desconhecido, baseado na aquarela feita pela irmã Cassandra em 1810


Jane Austen nasceu em 1775, em Steventon, Hampshire, Inglaterra, filha de George Austen, reitor e professor,  e de Cassandra Leigh Austen. A família era formada por oito irmãos, sendo Jane e sua irmã mais velha, Cassandra, as únicas mulheres. Cassandra e Jane eram confidentes e muito unidas. Embora as duas irmãs tenham sido enviadas para três diferentes escolas quando crianças, receberam a maior parte da educação em casa, na escola dirigida por seu pai. Viveu na época da Regência (compreende o período da regência de Jorge IV como Príncipe de Gales durante a enfermidade de seu pai Jorge III e e uma ponte entre o período Georgiano e Vitoriano), porém sua obra caracteriza-se por descrever com mais precisão a sociedade rural georgiana e não tanto as mudanças sofridas com a chegada da modernidade.

Embora não tenha publicado até a idade de 36 anos, Jane Austen teve dois períodos de intensa produção literária, primeiro da adolescência  aos 20 anos e depois, durante sua última década de vida. Sua obra é composta por 6 romances completos: Sense and Sensibility (1811), Pride and Prejudice (1813), Mansfield Park (1814), Emma (1816), Persuasion (1818) e Northanger Abbey (1818); 2 romances incompletos: Sandition e  The Watson, uma obra curta - Lady Susan; obras conhecidas como juvenilia:  The Three Sisters, Love and Freindship, The History of England, Catharine e The Beautiful Cassandra, além de vários poemas e cartas. Morreu em 1817 com 42 anos.

Agora, as minhas opiniões sobre por que devemos ler Jane Austen:

1) Jane Austen é considerada uma das maiores escritoras da língua inglesa. Em uma pesquisa realizada pela BBC de Londres em 2003, a obra "Orgulho e Preconceito" foi eleita como o livro mais amado pelos leitores do Reino Unido (e o meu preferido também!);

2) Por sua narrativa satírica e sutil ironia: satirizou não apenas a tradição feminina na literatura, mas também seus efeitos no crescimento e desenvolvimento na imaginação feminina; focando tanto no romance sentimental como na forma epistolar do romance gótico, Austen criticou comicamente a supervalorização do amor, a falta de educação (ensino) da mulher, os subterfúgios do mercado de casamento, a rivalidade entre mulheres pela aprovação masculina e o culto feminino pela fraqueza e dependência. Ninguém escapava de sua sátira: o clero, a orgulhosa aristocracia,  nouveau riche e as garotas que se iludiam pensando serem mestres do seu destino. 

3) Pelo humor presente na maioria das obras: mesmo a pessoa mais mal humorada vai conseguir dar boas gargalhadas lendo Jane Austen. Tem como não se divertir com o falatório da Sra. Bennet ou da Sta. Bates? E o Sr. Woodhouse, com sua rabugice?

4) Pelo retrato fiel da sociedade em que vivia: descreve com maestria em seus romances a incapacidade de mobilidade social, os preconceitos que permeavam as relações entre classes sociais da época e a luta das mulheres para casar-se. Suas obras expressam seu descontentamento com a sociedade em que vivia através de criticas sagazes e personagens caricatos;

5) Pelos personagens bem construídos: os personagens dos livros de Jane Austen são tão bem criados que parecem saltar das páginas…seus vívidos retratos podem ser usados para resumir tudo o que queremos dizer de uma pessoa. Nós não vemos apenas nossos amigos, amantes e conhecidos nos seus romances, mas também nós mesmos. Seus heróis e heroínas atraem identificação;

6) Outros escritores possuem admiradores; Austen tem fãs, sociedades e mesmo um "culto" nomeado pelo escritor Rudyard Kipling como "Janeites". Livros normais são lidos; os de Austen são devorados, digeridos e reinterpretados;

7) Seus romances resultaram em inúmeras adaptações para o cinema, TV, teatro, sem contar as continuações e paródias, como a mais recente 50 Tons do Sr. Darcy (socorro!);

8) Quem lê e gosta de Jane Austen está bem acompanhado; escritores que já declararam sua admiração pela obra de Austen: Sir Walter Scott, Virginia Woolf, C.S. Lewis, J.K.Rowling, E.M. Foster, A. S. Byatt, Alain de Botton, W. Somerst Maugham, Martin Amis, Harold Bloom...

9) É possível ler tudo o que ela escreveu: são apenas 6 livros, se formos contar apenas os romances completos. E reler Jane Austen é prazer redobrado!

10) Para ter um momento de descanso nessa correria do mundo atual: relaxe acompanhando as irmãs Bennet em uma caminhada no campo ou divirta-se com Emma e sua turma em um piquenique em Box Hill.

Agora sente-se em sua poltrona favorita com uma deliciosa xícara de chá e mergulhe no mundo de Jane Austen. Eu garanto que não irá se arrepender...





Minha biblioteca Jane Austen







"Nós lemos Jane Austen porque ela parece nos conhecer melhor do que nós mesmos e nos ajuda a descobrir quem somos como leitores e como seres humanos." Harold Bloom


"Por que lemos Jane Austen? É mais do que apenas procurar uma boa leitura ou ser parte de um mundo perfeito. Nós desejamos ser as heroínas de Jane Austen em nossas próprias vidas, lidando com tudo - especialmente homens - com a sofisticação e competência que  admiramos em personagens como Elizabeth Bennet. As mulheres vêem algo em Jane Austen que está em falta nos relacionamentos modernos e  não deixamos de imaginar se há um meio de ter o que vemos nos livros, sem voltar a época dos vestidos império e das carruagens puxadas por cavalos." Elizabeth Kantor

terça-feira, 7 de maio de 2013

Novos rumos para o blog

"Aprendi com a primavera; a deixar-me cortar e voltar sempre inteira." Cecilia Meireles

Aqui nos Estados Unidos a primavera finalmente chegou e aproveitando o fato que nesta época  tudo se renova e recomeça, resolvi tomar vergonha na cara e resolver o que fazer com o blog, que está completando quase um ano de abandono. Não sei se ainda tenho leitores, mas acho que devo dar um retorno para quem já o leu (muita gente deixou mensagens pedindo minha volta; agradeço de coração!)

Acontece que eu perdi um pouco a vontade de escrever quando descobri uns blogs com umas resenhas muito melhores do que as minhas, comecei a achar todas muito mal escritas. Como muita gente acompanhou, também fiz parte do blog 365 Escritores, que infelizmente encerrou suas atividades. O tanto que eu sofria para escrever aqueles posts serviu para comprovar que não tenho muito talento para escrita mesmo...Vou publicá-los aqui; assim que ainda não leu, poderá ter a oportunidade.

Voltando ao Quero Morar em uma Livraria; estou pensando em algumas opções...continuar com o blog, mas dando um rumo diferente, não priorizando resenhas e sim, mostrando compras, novidades do mundo literário, noticias, etc; e se não der certo, encerrarei o blog. Amanhã postarei o primeiro post que fiz para o 365, sobre minha amada Jane Austen. 

Ah, e para quem conhece os bookmarks que faço, estou montando uma lojinha virtual; logo, logo quem quiser poderá encomendar. See you!